#Entrevista #A nossa diáspora

Filomeno Fortes: “Acredito que a minha experiência poderá ser útil ao nosso país”

Venceu um concurso internacional, em 2019, para a liderança do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Lisboa, e é um dos muitos angolanos de excepção – ainda que não o admita – espalhados pelo Mundo. Filomeno Fortes, médico de formação e investigador por vocação, nasceu no Lubango, Huíla há 67 anos, e acredita que ainda poderá ser útil a Angola e aos angolanos.

VOZ DA DIÁSPORA (VD): Está a entrar no último ano do seu mandato no IHMT. Ainda há muito trabalho por fazer?
FILOMENO FORTES (FF): Numa Instituição tão forte, complexa e multidisciplinar como o IHMT, o trabalho é interminável, e exige sempre inovação e sustentabilidade.

Quais as prioridades?
As prioridades são a recuperação do impacto da pandemia, o reforço da capacidade institucional da cooperação e a promoção dos recursos humanos.

Gostaria de fazer um segundo mandato?
Seria interessante, tendo em conta a experiência obtida no mandato em curso, e porque fica a sensação de que, se não tivesse havido pandemia, os resultados seriam mais eloquentes e a intervenção institucional mais produtiva.

Sente-se um angolano de excepção, pelo seu percurso académico e profissional?
Não. Considero-me um angolano abençoado pela terra onde nasci, que aproveitou os sacrifícios, o exemplo familiar e as oportunidades, objectivando sempre contribuir para um mundo melhor, nunca virando as costas às dificuldades e aos desafios.

Referiu numa entrevista que é um “médico emprestado à ciência”. Vai voltar a exercer Medicina, ou fica para sempre na ciência?
Na prática, nunca deixei de exercer a Medicina, directa ou indirectamente. A instituição que generosamente me acolheu tem como missão a saúde global na visão de uma só saúde, integrando a prática médica como uma das componentes.

Que tipo de investigação leva a cabo, nesta jornada científica?
O IHMT é uma Unidade Orgânica da Universidade Nova de Lisboa e uma das poucas a nível mundial com características especiais que integram a saúde global (saúde pública, saúde internacional), a biomedicina e as doenças tropicais. A investigação cobre estes três domínios. O Instituto conta com investigadores e docentes de grande performance a nível nacional e internacional, o que me obriga a um acompanhamento e esforço de actualização constantes, de forma transversal e holística.

Na prática, nunca deixei de exercer a Medicina, directa ou indirectamente. A instituição que generosamente me acolheu tem como missão a saúde global na visão de uma só saúde, integrando a prática médica como uma das componentes.

Como tem corrido a cooperação do IHMT com congéneres da CPLP?
De forma satisfatória. Trabalhamos com instituições académicas e sanitárias de todos os países da CPLP, à excepção da Guiné-Equatorial. Providenciamos formação em Lisboa ou nos respectivos países e interagimos no domínio da investigação científica. Conseguimos implementar projectos integrados de implementação multilateral, bilateral ou unilateral. Somos um órgão Consultivo e de Assessoria da CPLP com a Fiocruz (Brasil) e com o Instituto Nacional de Saúde Pública de Portugal, pelo que a nossa contribuição para o Plano Estratégico de Cooperação em Saúde (PECS) é crucial.

A malária continua a ser um problema de saúde pública grave em Angola. É o problema mais grave do país, na sua opinião, do ponto de vista da saúde pública?
Sem dúvida. Infelizmente continua a ser a principal causa de doença e de morte. Provoca problemas na grávida e no recém-nascido; afecta a criança em idade escolar em termos de saúde e de rendimento; atinge os trabalhadores, aumentando o absentismo laboral e interferindo na rentabilidade das famílias; cria dificuldades no diagnóstico diferencial de outras doenças febris como a dengue, febre tifóide etc,contribui para a malnutrição e agravamento da anemia e sobrecarrega as unidades sanitárias. É uma importante causa de pobreza e de repercussão no desenvolvimento sócio-económico do país.

Começou por ser médico em tempos de guerra. Como foi essa experiência?
Foi uma etapa crucial para a minha maturidade, visão estratégica, compreensão dos fenómenos, solidariedade, resiliência, espírito de sacrifício e ganho de experiência médica. Eu sou o n.º 118 na Ordem dos Médicos de Angola, o que significa que, nessa altura, eramos poucos quadros. Não tínhamos especialistas, o que nos obrigava a ser polivalentes nas especialidades básicas, nomeadamente na Medicina, Cirurgia, Gineco-obstetricia e Pediatria. Não tínhamos condições básicas de trabalho, o que nos obrigava a um improviso permanente, para tentarmos salvar vidas de vítimas de agressões aéreas da aviação da África do Sul. Participei nas primeiras inspecções médico-militares que Angola estabeleceu, após a passagem das FAPLA às FAA, e foi uma experiência para toda a vida. Em 2002, sobrevivi a um acidente de aviação no Luena, num avião das Nações Unidas. O objectivo da viagem era o lançamento da Iniciativa Americana na luta contra a malária, que chegou a concretizar-se três anos depois, a Angola foi um dos três países pioneiros a nível mundial.

O que retém mais do exercício da Medicina em Angola?
Acabei aos 25 anos e fui directamente para a província da Huila como Delegado (Director) Provincial de Saúde. Antes foi a experiência de um estudante a evoluir numa Faculdade de Medicina que tinha poucos professores que tinham a responsabilidade de cuidar da saúde das populações e formar quadros. Isto implicou um amadurecimento clínico precoce dos estudantes – um grande bem-haja para os nossos professores dessa época! Ser médico é pensar na saúde colectiva, mas o contacto individual com o doente é crucial para percepção da situação e da necessidade da criação de mecanismos de redução do sofrimento individual.

Vive há alguns anos fora de Angola. Vai regularmente ao país?
Estou há cerca de três anos ausente fisicamente do país. Não me desloco tão regularmente, tendo em conta que a responsabilidade do IHMT é extensiva aos países da CPLP e a sua dinâmica é de carácter internacional, mas, sempre que possível ‘corro’ para o meu país, principalmente para apoio a actividades. O IHMT está a apoiar Angola no doutoramento em Ciências Biomédicas, com a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, no Mestrado em Parasitologia Médica com a Universidade Katyavala Buila, em Benguela, com o MBA de Gestão em Saúde com a Fundação BAI e com Centro de Educação Médica da Agostinho Neto, para além do apoio a estudantes de mestrado e doutoramento em Portugal.

Eu sou o n.º 118 na Ordem dos Médicos de Angola, o que significa que, nessa altura, eramos poucos quadros. Não tínhamos especialistas, o que nos obrigava a ser polivalentes nas especialidades básicas, nomeadamente na Medicina, Cirurgia, Gineco-obstetricia e Pediatria

Admite regressar de vez?
Pretendo regressar ao meu país. Acredito que posso dar algum contributo como médico, como especialista em saúde pública, como investigador e como professor.

A sua experiência poderá vir a ser útil ao país…
Acredito que sim. Contribuir para a formação de novas gerações, participar em estudos de pesquisa operacional para a melhoria do conhecimento das doenças prevalecentes no país, contribuir para a definição de políticas públicas e de estratégias no domínio da saúde e da formação pós-graduada, facilitar o estabelecimento de pontes de parceria dentro e fora do país.

Como olha para a formação dos médicos em Angola?
Acredito que está na altura de Ordem, Sindicato dos Médicos e Sociedade Civil reforçarem o seu papel junto do Ministério da Educação, do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério da Saúde. A formação médica inicia-se no ensino secundário, perpetua-se nas faculdades e nos institutos, e consolida-se nas instituições de investigação e prestação de serviços aos vários níveis. Necessitamos de um olhar mais crítico sobre os planos curriculares sobre a mobilização e capacitação de docentes, a criação de condições favoráveis para a formação e para a prestação de cuidados médicos, na selecção adequada de candidatos e na estratégia de especialização. Juntar a estes elementos questões fundamentais como a ética, bioética, a criação de valor e a remuneração, incluindo aspectos da saúde ocupacional.

E como vê a evolução do sistema de Saúde? Qual o problema mais grave?
A grande prioridade deve centrar-se na implementação de políticas centradas nos cuidados primários de saúde, não esquecendo naturalmente a importância dos cuidados especializados, nomeadamente a abordagem das doenças crónicas não-transmissíveis como as doenças cardiovasculares, a doença mental e o cancro (entre outras), doenças que merecem igualmente uma abordagem integrada nos cuidados primários de saúde.

1 Comment

  1. Maria Antunes
    08th Abr 2023 Reply

    Respostas que evidenciam a qualidade excepcional da formação e a grande experiência pessoal do entrevistado. Quem nos dera ter maior número de quadros com esta preparação. Aguardamos a evolução da sua carreia.

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